sábado, 10 de novembro de 2012

nós sem nó;

[malabares no escuro]

pra que palavras belas
se já estamos surdas?
pra que levantar as velas
se o barco afundou?
pra que dizer tantos segredos?
pra que trocar nossos travesseiros?
se tua boca não me satisfaz?

pra que cantar o amor
se a platéia está vazia?
pra que curar a dor
se ela já nos matou?

pra que falar sobre nossos medos?
pra que tentar corrigir os erros?
se teu corpo já não me anima mais?

malabares no escuro não encantam ninguém
cantar para surdos não me faz bem
rimar as frases já ficou sem graça
suas palavras já viraram farsa
e o teu colo não me convence mais.

pra que palavras belas
se já estamos surdas?
pra que curar a dor
se ela já nos matou?

nó em nós;

Chora menina, por essa história que não terminou.
Canta comigo sobre a lágrima que se precipitou.
Balança teus cabelos, deixa a infância voltar.
Tenha sonhos de criança pra dor não despertar.

Diga menino, se um dia isso vai passar.
Brinca comigo, impeça meus olhos de chorar.
Se torne meu soldado, deixa a infância voltar.
Afague meus cabelos e não me deixe acordar.

nó sem nós;

vai coração!
abre a cicatriz
deixa a dor entrar
deixa atormentar
deixa o silêncio perturbar.

os nossos beijos
em nós, pequenos
tantos olhares
dores nos lares
tantos segredos

minha pele nua
tua comida crua
tantos olhares
dores nos bares
bogagens tuas

os nossos beijos (minha pele nua)
em nós pequenos (tua comida crua)
tantos olhares (tantos olhares)
dores nos lares (dores nos bares)
tantos segredos (bobagens tuas)

vai coração...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

nós sem nós;

escuta agora a última batida do meu pandeiro
respira e sufoca o pó que sobe
e o bandolim que chora baixinho
meu samba de ir embora

lê, pela última vez, meus versos pra você
reclama o ardor da dor que nasce
sente meu abraço no teu e canta
meu samba de ir embora.

devolve os lábios que me pertenceram
desate nó a nó dos lençóis
atente-se a despedida do violão
é o samba de quem vai embora

escuta agora o último gemido da cuíca
no pé do ouvido do teu Chorinho
e o acorde final do meu samba triste
é o samba de quem vai embora.

nós em nós;

o fim está próximo

e nós nem sequer saímos debaixo do lençol,
nossa vida tenta ser a mesma, apesar de.
nossas mãos tentam dar-se às mesmas, apesar das frutas.
nossos pés tentam se agradar, apesar das unhas.
nossos lábios tentam beijar, apesar das palavras.
nosso sexo tenta suar, apesar do frio.
nossa pele tenta queimar, apesar da dor.
nosso corpo tenta arder, apesar da morte.